Abelhas sem ferrão e Mata Atlântica: quando a polinização aproxima floresta e produção

Compartilhar

Abelhas sem ferrão e Mata Atlântica: quando a polinização aproxima floresta e produção

Em busca de néctar e pólen, as abelhas visitam diferentes flores e transportam pólen pela paisagem. Um pequeno deslocamento que participa da reprodução de muitas plantas.
Foto: Meliponário Sampaio.

Uma floresta não permanece viva apenas porque existem árvores.

Ela depende de uma rede enorme de relações que quase nunca percebemos quando caminhamos por uma trilha. Há sementes sendo dispersadas, folhas se decompondo, raízes trocando nutrientes com fungos, pássaros carregando frutos e pequenos animais transportando pólen de uma flor para outra.

Entre esses trabalhadores discretos estão as abelhas.

Na Mata Atlântica, muitas espécies de abelhas nativas sem ferrão fazem parte dessa dinâmica há milhares de anos. Ao visitar flores em busca de néctar, pólen, resinas e outros recursos, transportam grãos de pólen entre plantas e participam de um processo fundamental para a reprodução de muitas espécies vegetais.

Chamamos esse processo de polinização.

Parece simples. Uma abelha pousa numa flor, visita outra e segue viagem. Mas desse movimento aparentemente pequeno podem depender frutos, sementes, novas plantas e, em escala maior, parte da renovação da própria floresta.

Uma parceria muito mais antiga que a agricultura

As flores e seus polinizadores desenvolveram relações ao longo de milhões de anos.

Algumas plantas podem receber visitas de muitos tipos de insetos. Outras dependem mais diretamente de determinados grupos de polinizadores. Há flores pequenas, grandes, abertas, profundas, perfumadas ou quase sem cheiro. E há também abelhas de diferentes tamanhos, comportamentos e maneiras de coletar alimento.

A biodiversidade nasce justamente dessa variedade.

Pesquisas sobre a Mata Atlântica mostram que a reprodução de parte das plantas pode ser limitada quando a polinização é insuficiente. Espécies mais especializadas em determinados polinizadores tendem a ser especialmente sensíveis à perda desses animais.

As abelhas sem ferrão fazem parte dessa rede.

Jataís, mandaçaias, mirins, mandaguaris, uruçus e muitas outras espécies visitam plantas nativas e cultivadas. Cada uma estabelece relações particulares com o ambiente onde vive, com as floradas disponíveis e com as características de cada território.

Por isso, quando falamos em conservar abelhas nativas, não estamos falando apenas em proteger um inseto simpático que produz um mel diferente.

Estamos falando também em conservar relações ecológicas.

Quando a abelha visita uma flor

A abelha não sai da colônia pensando em salvar a Mata Atlântica. Seria exigir consciência ambiental demais de um animal que já trabalha bastante.

Ela procura alimento.

O néctar fornece energia. O pólen é uma importante fonte de nutrientes. Resinas e outros materiais vegetais também podem ser utilizados na construção e proteção do ninho.

Durante essas visitas, o corpo da abelha entra em contato com estruturas da flor. Grãos de pólen podem ficar presos aos pelos e ser levados para outra flor da mesma espécie.

Quando esse pólen encontra as estruturas reprodutivas adequadas, pode ocorrer a fecundação e, a partir dela, a formação de frutos e sementes.

É assim que uma viagem de poucos metros pode participar de um processo muito maior.

A Embrapa Florestas chama atenção justamente para o potencial das abelhas nativas sem ferrão nos serviços de polinização de espécies florestais e para sua importância na produção e na qualidade genética das sementes.

A floresta, portanto, oferece alimento e abrigo às abelhas. E as abelhas ajudam a floresta a continuar produzindo novas gerações de plantas.

É uma relação de troca, não uma linha de produção.

Da floresta para uma paisagem produtiva

Essa relação ajuda a levantar uma pergunta interessante:

é possível aproveitar melhor a presença das abelhas nativas também em propriedades rurais produtivas?

A resposta começa com um cuidado.

Não se trata de transformar uma floresta em área de produção nem de simplesmente instalar caixas de abelhas em qualquer lugar esperando um aumento automático de produtividade.

O caminho mais interessante está em propriedades que conseguem aproximar produção agrícola, diversidade vegetal e conservação ambiental.

É justamente aí que entram os sistemas agroflorestais.

Em uma agrofloresta, árvores, arbustos e culturas agrícolas podem ocupar o mesmo espaço ou diferentes estágios de um sistema planejado. Quando existe diversidade de espécies e floradas distribuídas ao longo do ano, o ambiente pode oferecer recursos para diferentes polinizadores por períodos maiores.

A Embrapa aponta que os sistemas agroflorestais biodiversos podem favorecer a conservação das abelhas nativas justamente pela disponibilidade de pólen, néctar, resinas e outros recursos ao longo do tempo. E a meliponicultura pode ser integrada a esses sistemas.

Nesse caso, a relação começa a funcionar nos dois sentidos.

A agrofloresta pode alimentar as abelhas.

As abelhas podem participar da polinização da agrofloresta.

Um meliponário dentro do sistema produtivo

É aqui que o assunto começa a ganhar uma dimensão muito prática.

Normalmente pensamos no meliponário como o lugar onde são criadas abelhas para produzir mel, própolis, pólen ou novas colônias.

Mas ele também pode ser entendido como parte da estrutura ecológica de uma propriedade rural.

Um pequeno conjunto de colônias, planejado de acordo com as espécies de abelhas, a vegetação, as floradas e as culturas presentes, pode conviver com pomares, hortas, cafezais e sistemas agroflorestais.

O objetivo deixa de ser apenas produzir mel.

Passa também a existir a possibilidade de fortalecer a presença de polinizadores naquela paisagem.

Essa ideia já é objeto de pesquisa da Embrapa. O projeto IntegrASF-SAF trabalhou justamente com a integração da criação racional de abelhas sem ferrão a sistemas agroflorestais agroecológicos e biodiversos, inclusive em propriedades da agricultura familiar nos biomas Mata Atlântica e Cerrado.

É uma mudança interessante de perspectiva.

Em vez de separar floresta, agricultura e criação de abelhas em três mundos diferentes, começamos a pensar em como essas atividades podem conversar.

Abelhas sem ferrão e Mata Atlântica: quando a polinização aproxima floresta e produção

Integrado à propriedade rural, o meliponário pode fazer parte de um sistema que combina produção agrícola, diversidade vegetal, conservação de polinizadores e geração de renda. Foto: Meliponário Sampaio.

Manejo não significa simplesmente colocar mais abelhas

Essa distinção é importante.

Um projeto de polinização com abelhas nativas precisa começar pelo conhecimento do lugar.

Que espécies de abelhas ocorrem naturalmente naquela região?

Que plantas existem na propriedade?

Quando elas florescem?

Há alimento suficiente durante todo o ano?

Existem áreas de vegetação nativa próximas?

Há uso de defensivos agrícolas?

Quais culturas realmente dependem ou se beneficiam da visita das abelhas?

E qual espécie de abelha apresenta características adequadas para aquele ambiente?

A própria Embrapa recomenda como primeira estratégia para melhorar a polinização agrícola a conservação e a recuperação dos habitats naturais próximos às lavouras, junto a sistemas produtivos mais diversos. Mesmo quando são utilizadas colônias manejadas, a presença de uma comunidade diversa de polinizadores nativos continua sendo importante.

Isso muda bastante a lógica.

A solução não é apenas levar abelhas para uma propriedade.

É criar condições para que abelhas e agricultura possam permanecer ali.

A paisagem como parte da produção

Durante muito tempo, áreas naturais dentro ou ao redor de propriedades rurais foram vistas quase como aquilo que sobrava depois da área produtiva.

Hoje sabemos que a paisagem é mais complexa.

Matas, corredores de vegetação, nascentes, áreas de preservação, árvores isoladas, plantas espontâneas e diferentes floradas podem participar do funcionamento ecológico da propriedade.

Os polinizadores atravessam essas fronteiras que nós desenhamos no mapa.

Para uma abelha, pouco importa onde termina oficialmente a Mata Atlântica e começa o pomar. Ela responde à distância, ao alimento disponível, ao clima, ao abrigo e às condições que encontra pelo caminho.

Pensar a produção rural a partir dessa perspectiva significa reconhecer que biodiversidade e agricultura nem sempre precisam estar em lados opostos.

Em alguns sistemas, uma pode ajudar a sustentar a outra.

Abelhas sem ferrão e Mata Atlântica: quando a polinização aproxima floresta e produção

Em sistemas produtivos biodiversos, diferentes plantas podem oferecer alimento aos polinizadores ao longo do ano. A paisagem passa a fazer parte da própria estratégia de produção. Foto: Kátia Braga / Embrapa.

Da Mata Atlântica para o alimento

No Meliponário Sampaio, convivemos justamente com essa paisagem.

Estamos em Camanducaia, no Sul de Minas Gerais, em uma região marcada pela Mata Atlântica, pelas montanhas da Mantiqueira e também pela presença de pequenas propriedades rurais, pomares, hortas, cafezais e outras formas de agricultura.

Por isso, olhar para uma colônia de abelhas sem ferrão significa olhar para algo maior que a produção de mel.

Significa observar uma espécie que participa de relações antigas com a vegetação do território e que, quando manejada com responsabilidade e conhecimento, pode também encontrar espaço em sistemas agrícolas mais diversos.

Essa possibilidade merece ser estudada com cuidado.

Não porque as abelhas sejam uma solução mágica para a agricultura. Não são.

Mas porque compreender melhor a polinização permite enxergar a propriedade rural como aquilo que ela realmente é: um sistema vivo.

No próximo artigo desta série, vamos sair um pouco da floresta e chegar diretamente à produção agrícola.

Pesquisas com café, morango e tomate começam a mostrar o que acontece quando as abelhas sem ferrão deixam de ser vistas apenas como produtoras de mel e passam também a ser consideradas parceiras na polinização de determinadas culturas.

Entre uma flor da Mata Atlântica e um alimento sobre a mesa existe um caminho.

Em muitos casos, uma abelha passou por ele.